Votos perpétuos da Irmã Cristina Silva

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A Irmã Cristina Silva fará no próximo sábado, 15 de outubro, a sua profissão perpétua na congregação das Carmelitas Missionárias, na celebração da Eucaristia pelas 16h, presidida  pelo bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, na igreja matriz de Lagoa. Haverá também uma vigília vocacional, no mesmo local, na noite de sexta (14) pelas 21h00.
Deixamos-te aqui o testemunho da Irmã Cristina.

“Chamo-me Cristina, sou Carmelita Missionaria, e neste momento pedem-me para escrever um pouco sobre a minha vocação.
Estou a poucos dias de fazer a minha profissão perpétua, ou seja, de publicamente consagrar-me definitivamente a Deus na Congregação das Carmelitas Missionárias. Provavelmente muitos se poderão perguntar: que é isso de consagração, profissão perpétua, Carmelita Missionária… e uma série de outras perguntas… Tentando “traduzir” e de um modo mais simples e dentro da linguagem mais comum… sou “freira”, “irmã”, “missionária”, desde 2010; e como passamos primeiro por um tempo em que renovamos anualmente o nosso “sim a Deus”, agora chega o momento de dizer “SIM PARA SEMPRE”… Trata-se de expressar e celebrar publicamente a entrega de TODA a minha VIDA em mãos de DEUS… consagrar TODA A MINHA VIDA, A MINHA EXISTÊNCIA A ELE.
Não sou melhor nem pior que qualquer outra pessoa; simplesmente fui descobrindo e fazendo experiência, na minha vida, do infinito AMOR DE DEUS e percebendo que a minha vida só tinha sentido numa entrega sem reservas a DEUS e aos OUTROS.
Sou mulher, filha do meu querido Algarve e filha do “meu tempo”. Nasci há 37 anos em Lagoa. E a vida foi-me levando a viver também noutros lugares do Algarve: S. Lourenço do Palmeiral (Pêra), Faro (em tempo de universidade), Lagos (durante o estágio pedagógico)… enfim… penso que, pouco a pouco, fui aprendendo a não estar “agarrada” a uma terra em concreto, mas ao mesmo tempo a sentir-me sobretudo “algarvia”…
E, como “descobri” a minha vocação de Carmelita Missionária? O primeiro que me parece importante dizer é que foi um grande e longo processo.
Fui batizada, comecei a ir à catequese com 6/7 anos, fiz a 1ª Comunhão, mas ainda que não gostasse de ir à missa… e muito menos rezar… Creio que sem saber muito bem porquê fiz um caminho um pouco ao contrário da maioria dos meus colegas/amigos de escola. Na adolescência, quando muitos começaram a deixar a catequese e a não ir à missa, eu progressivamente comecei a aceitar de “bom gosto” ter alguma participação (ler, ofertório,…) na Eucaristia. E comecei a buscar saber/conhecer um pouco mais daquilo que me ensinavam em catequese. Sempre fui muito curiosa, e creio que aqui a curiosidade me foi levando pouco a pouco buscar conhecer um pouco mais de Deus. Até que chegou um momento, creio que o primeiro da minha vida, em que comecei de verdade a acreditar na “existência” de Deus. Penso que até àquele momento, Deus era uma ideia da qual estava acostumada a ouvir falar. A partir de aí, de algum modo, tudo começou a mudar na minha vida. Comecei a rezar, e sobretudo a levar muito a sério “as coisas de Deus”. Nisto teve uma importância grande um livro que li sobre as aparições e mensagem de Fátima. Um convite forte à conversão tomou eco na minha vida. E por esse tempo houve um encontro interdiocesano de jovens em Vila Viçosa, e a catequista convidou-nos a ir. Acabei por animar-me com outros companheiros de catequese, a ir a este encontro. Creio que me inscrevi mais pela questão de ir a um lugar que não conhecia com jovens de outros lugares que por qualquer outra razão. Além disso havia que não dizer a idade pois só tínhamos 14 anos e os outros que iam eram mais velhos. E qual não foi a minha surpresa quando me vi num grande encontro de jovens, que me parecia genial e o tema era a vocação à vida consagrada… mas não tinha ideia de nada, ou quase nada, sobre este tema. Ali simplesmente chamava-me a atenção ver “freiras/irmãs sem hábito”, pois as que me davam catequese usavam… Houve um momento de testemunhos vocacionais e aquilo entrava-me por um ouvido e saia-me por outro. Não me dizia nada, até que de repente escuto uma “irmã/monja” dizer que não saia do convento, que vivia em clausura; e aquilo despertou-me muito a atenção… era Carmelita Descalça e percebi que era uma mulher normal e feliz… Como era isso possível? Creio que percebi a presença do Mistério de Deus na vida daquela mulher. Ali “havia algo”… e tocou-me profundamente o coração. Perdi, naquele momento, a “alergia” que tinha às freiras. E, ao final, o bispo do Algarve num momento de oração nos interpelava a perguntar a Deus “que queres de mim?”, “a que me chamas?”… E acabei por perguntar a Deus isso mesmo. Desde aquele momento creio que estava lançada a semente para que eu começasse a buscar o que Deus queria de mim, qual era a minha vocação? E comecei a acreditar que de verdade a minha vocação passava pela vida religiosa, por consagrar toda a minha vida a Deus. Mas era muito jovem. Além disso não queria que os meus pais sofressem (eu era filha única e esse não seria o projeto que eles teriam para a minha vida), não conhecia ninguém que tivesse a mesma inquietude. Assim que fiz “um pacto comigo mesma”, deixaria passar o tempo, seguiria “fazendo a minha vida”, estudando e depois logo se veria. Provavelmente me “passaria esta ideia”. Mas ao mesmo tempo, eu já não podia negar a Deus e a centralidade e força que tinha cada vez mais na minha vida. Progressivamente comecei a comprometer-me mais na comunidade de S. Lourenço, sobretudo como catequista. Depois fui para a Universidade para Faro onde entrei na minha 1ª opção, Matemática. Estudava o que queria e era feliz. Fiz muitos e novos amigos. E também aí não podia deixar de viver a minha fé. Foram anos de uma enorme riqueza, participando em atividades da Pastoral Juvenil, fazendo o Convívio Fraterno e depois integrando a equipa, continuando a dar catequese, e integrando a AJUC (Associação de Jovens Universitários Cristãos). Na AJUC partilhávamos um pouco de tudo: inquietudes, sonhos, projetos, dúvidas,… e sobretudo celebrávamos e vivíamos a fé no nosso ambiente universitário. Como diziam ironicamente alguns colegas, “vivíamos da Cruz”… Naquele ambiente eu sentia-me missionária, instrumento nas mãos de Deus para que outros pudessem conhecer a Deus. Foram tempos que deixaram em mim uma forte e intocável marca. Até que em 2002 acabei o curso… e agora quê? Alguns amigos da AJUC fizemos uma breve experiência de um mês, de vida em comunidade, não colocando de parte a possibilidade de disponibilizar-nos para estar ao serviço da diocese onde fizesse falta. Não passou de uma experiência de um mês, mas conectou com o que continuavam sendo em mim uma série de questões vocacionais. Entretanto enquanto tinha diante de mim os impressos para o concurso de professores, que me podiam levar a trabalhar em qualquer lugar de Portugal, surgiu a possibilidade de dar aulas de EMRC (Educação Moral e Religiosa Católica) em Lagoa. Não hesitei… era a possibilidade tornar realidade o “meu sonho”… falar/levar Deus de um modo concreto e objetivo aos adolescentes e jovens dentro do que era o meu contexto profissional. Além disso na terra que me viu nascer e onde de novo viviam os meus pais. Tudo parecia perfeito! Tinha tudo aquilo que podia querer… mas tinha algo por “resolver” na minha vida… tinha que ser sincera comigo mesma e com Deus. “Senhor que queres de mim?”, seguia sendo a questão de fundo, junto com a resposta ” faça-se em mim a Tua Vontade”. Sentia-me chamada a entregar TODA a minha vida a Deus, mas tinha muitos medos… Acreditava que Deus me chamava à vida consagrada, mas eu não queria… para mim era mais fácil seguir sendo uma “leiga comprometida”… Mas a pergunta seguia aí… ” Senhor que queres de mim?” E como Deus não aparece a ninguém no meio da noite, mas serve-se de mediações, também comigo se serviu de mediações que me levaram a entrar num processo de acompanhamento e discernimento vocacional. E pouco a pouco fui fazendo um caminho onde as minhas questões vocacionais foram serenando e encontrando resposta. Fui percebendo de um modo cada vez mais claro que era chamada como Abraão a “deixar a minha terra e ir”.
O meu coração seguia conectando com o Carmelo, não propriamente como Carmelita Descalça, mas sim como Carmelita Missionária. Já conhecia as irmãs e simpatizava com elas, gostava da sua veia “missionária”, “evangelizadora”,… e entretanto conheci um pouco da vida do Pe. Palau (fundador das Carmelitas Missionárias) que me ajudou a perceber que as origens daquelas irmãs conectavam fortemente com a minha vida. E em Outubro de 2005 chegou o momento de dar o passo de começar o postulantado (tempo de conhecimento e vida mais próxima com a congregação) que me levou a passar a fronteira e ir até Madrid.
Já escrevi muito. As ideias que fui expressando, os acontecimentos e decisões levam em si algo que é fundamental e a razão de estar aqui a escrever estas letras: a tomada de consciência da presença de Deus na minha vida e história; o ir aprendendo a descobrir o Mistério de Deus na vida de outros e na minha própria vida. O Mistério de Deus que é Amor, infinita misericórdia, que me criou à Sua imagem e semelhança, e me ama tal qual sou, me chama a amar e ser amada, a ser testemunha do Seu Amor e a viver desde e num continuo dinamismo de busca de este Deus que é muito mais do que eu possa alguma vez imaginar. Ele me interpela a que hei deixe que Ele seja dia a dia cada vez mais Deus na minha vida. Creio que aqui radica o profundo sentido da minha vida, da minha existência, da minha vocação: ser quem sou, criatura profundamente    amada por Deus e chamada a testemunhar esse Amor, essa ternura de Deus aos homens e mulheres do meu tempo, num mundo que não pode ter fronteiras … esta é a minha vocação de Carmelita Missionária.”
(Cristina Silva, cm)

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